Vale foi a empresa mais ‘controversa’ em 2016, diz estudo – Valor Econômico

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Por Paula Selmi | Valor Econômico

O desastre de Mariana (MG), no fim de 2015, provocado pelo rompimento de uma barragem, levou a Vale ao primeiro lugar do ranking das empresas mais controversas de 2016. A mineradora superou a Petrobras, que apareceu em primeira posição em 2015 e 2014, em meio ao esquema de corrupção descoberto pela Operação Lava-Jato.

A operadora de telecomunicações Oi foi a primeira em 2013, quando o levantamento começou a ser feito pela SITAWI Finanças do Bem, consultoria que atua na área socioambiental. O levantamento inclui cem empresas brasileiras de grande porte.

A organização classifica como “controvérsias” fatos que podem impactar negativamente a empresa ou já impactaram em uma dessas três dimensões: social, ambiental e governança. Em 2016 foram registradas 272 controvérsias.

A Petrobras ficou na segunda posição do ranking de 2016, seguida pelo frigorífico JBS, a holding do setor elétrico Eletrobras e a Oi.

Os desdobramentos do rompimento da barragem da Samarco, controlada em conjunto com a anglo-australiana BHP Billiton, colocaram a Vale como a empresa que mais registrou controvérsias no ano, representando 26,4% do total contra 8,9% em 2015 e 3,7% em 2014. Entre as categorias das controvérsias, os impactos da Vale estão associados à comunidade e meio ambiente.

Depois do acidente, iniciou-se uma sequência de desdobramentos negativos para a mineradora, como investigações criminais, indiciamento de profissionais, multas administrativas, suspensão de operações, punições por más condições de trabalho e danos às comunidades no entorno.

Investidores da companhia tanto no Brasil como no exterior também demandaram reparação pelas perdas oriundas da desvalorização de seus investimentos, utilizando como justificativa as decisões finais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Polícia Federal, que indiciou a companhia.

“A Vale acabou liderando não só pela sequência e quantidade de fatos, mas também pela severidade, ou seja, pelo grau de impacto desses desdobramentos sobre o resultado e operações da empresa”, afirmou Guilherme Teixeira, consultor da SITAWI. “Parou atividades, perdeu receita, teve que fazer acordo com trabalhadores que ficaram sem trabalhar.”

Petrobras

Invertendo posições com a Vale, a Petrobras ocupou o segundo lugar, com 27 das controvérsias registradas, ou 9,9% do total, sendo 20 delas associadas ao tema de governança.

Segundo Teixeira, o número mostra que os desdobramentos da Operação Lava-Jato continuam sendo a principal razão para as controvérsias da petrolífera, o que prejudica sua capacidade de captação de recursos.

Além de novas descobertas nas investigações e indiciamentos pela Polícia Federal, a estatal responde a processos de acionistas da Bolsa de Valores de Nova York (Nyse) e perdeu investidores, como o maior fundo de pensão da Noruega. Outros investidores institucionais que tinham ações da companhia colocaram-nas em observação, devido ao risco de um efeito cascata.

JBS

Mantendo a mesma posição de 2015, a JBS figurou em terceiro lugar, com controvérsias relacionadas, principalmente, à questão dos trabalhadores. A empresa de frigoríficos representou 5,9% do total de controvérsias em 2016, mas mostrou uma melhora em relação ao ano anterior, quando correspondeu a 7,8%.

“Existem muitas ações do Ministério Público do Trabalho (MPT) de identificação de condições insalubres para os trabalhadores, porque envolve ambientes diferentes, que podem causar acidentes e doenças ocupacionais em seus frigoríficos.”

Em 2016, houve um fator agravante para a classificação da empresa, a Operação Greenfield, que apura o suposto aporte ilegal de fundos de pensão estatais em companhias com ativos superestimados. A J&F, controladora da JBS, é uma das investigadas.

A redução de 7,8% para 5,9% do total de controvérsias mostra que a JBS está aperfeiçoando suas práticas e respondendo às exigências do MPT nos últimos anos, segundo a pesquisa. A Operação Carne Fraca, no entanto, deflagrada em 2017, poderá ofuscar essa tendência de melhora e colocar a empresa novamente entre as primeiras posições neste ano.

Eletrobras

A Eletrobras ocupou a quarta posição em 2016, com 14 do total de controvérsias registradas no ano, ou 5,1%. Tais controvérsias estiveram principalmente associadas a duas obras: da Usina Angra 3, pelo suposto desvio de recursos, e da Usina de Belo Monte, sobre a qual o suposto cartel formado pelas empreiteiras pode prejudicar a Eletrobras e demais empresas que formam o consórcio.

“Isso tudo também tem impacto na reputação da empresa. Alguns investidores institucionais, fundos de pensão da Holanda, Suécia e Suíça deixaram de investir na Eletrobras por impactos nas operações e financeiros diretos”, afirmou Teixeira.

Oi

A quinta empresa com maior número de controvérsias foi a Oi, batendo seu próprio recorde nos últimos três anos. A operadora registrou 14 do total de controvérsias, ou 5,1% ante 3,8% em 2014.

A categoria clientes respondeu pela maioria das controvérsias da companhia. “As principais questões foram a qualidade dos serviços e a comercialização de planos de internet móvel como “ilimitados” apesar da restrição no volume de dados. Ambos geraram multas, que podem se repetir em 2017”, explicou Teixeira.

No entanto, o aumento de controvérsias com relação a 2016 teve como diferencial das outras operadoras a recuperação judicial da empresa, fruto das dificuldades de chegar a um acordo com os credores para reestruturação de sua dívida.

A SITAWI encaminhou o estudo para as cinco primeiras empresas de seu ranking e recebeu respostas de medidas corretivas apenas da Oi, que apresentou alguns números provando que está melhorando os resultados com os serviços aos clientes.

Para Teixeira, o ano de 2017 ainda contará com os impactos da Lava-Jato nas empresas, mas trará novas companhias no foco associadas à Operação Zelotes, como a Gerdau e o Bradesco. A siderúrgica e o banco ficaram na nona e na décima posições em 2016, respectivamente.

A SITAWI é uma organização da sociedade civil de interesse público (Oscip), fundada em 2008 pelo consultor Leonardo Letelier, que fornece análises socioambientais para investidores institucionais, como fundos de pensão, gestores de recursos e seguradoras, e faz empréstimos para ONGs com juros abaixo das taxas de mercado.

Em 2016, a organização foi eleita pela Independent Research in Responsible Investment (IRRI) como uma das dez melhores organizações de pesquisas socioambientais do mundo para investidores.

Outro lado

Procurada pelo Valor, a Vale respondeu, por meio de comunicado, que considera “irresponsável” a divulgação de um levantamento com base apenas em notícias aleatórias, sem que a empresa acusada tenha oportunidade de apresentar fatos e dados contestando as conclusões.

A empresa disse que sempre apoiou a Samarco em todas as ações emergenciais e de remediação e recuperação das áreas e comunidades atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão.

Em março de 2016, Vale, BHP Billiton e Samarco, celebraram um acordo com a União Federal, os Estados do Espírito Santo e Minas Gerais e outras autoridades governamentais para desenvolver e implementar programas de reparação e compensação socioeconômicos e socioambientais, constituindo a Fundação Renova, que passou a ser responsável por executar os mais de 40 programas de reparação, restauração e reconstrução das regiões impactadas pelo grave acidente ocorrido na região de Mariana.

Desde a data da ruptura da barragem, a Samarco e seus acionistas desembolsaram o total de R$ 2 bilhões (US$ 614 milhões) para cumprimento das obrigações previstas neste acordo.

A JBS encaminhou a seguinte resposta por meio de sua assessoria de comunicação:

“A JBS valoriza a prática da segurança no trabalho e engaja os seus colaboradores por meio do Sistema de Gestão de Saúde e Segurança, um programa de corresponsabilidade que envolve todos os níveis hierárquicos da companhia.

O compromisso e a preocupação constante da JBS com essa questão também se evidenciou com a criação, em 2015, de uma área de Compliance Trabalhista constituído por um grupo multidisciplinar dedicado à segurança do trabalho, responsável por agir preventivamente em todas as unidades de produção do grupo.

A JBS investe continuamente na melhoria das condições de trabalho e desenvolvimento dos colaboradores, em especial nas unidades adquiridas de outras empresas nos últimos anos.

Quanto à operação Carne Fraca, a Polícia Federal não constatou nenhuma irregularidade ou problema com produtos da Companhia. Há investigação sobre o procedimento de um médico veterinário que estava cedido ao Ministério da Agricultura e que se encontra com o contrato de trabalho suspenso. A JBS aguarda o resultado das investigações e tomará as medidas cabíveis.”

Também procuradas, Petrobras, Eletrobras e Oi não responderam até a publicação desta nota.

Esta matéria foi publicada originalmente no site do Valor Econômico, no dia 13 de abril de 2016.

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