Quase 40% dos negócios precisam de até R$ 200 mil

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*Por Glauce Cavalcanti e Ana Paula Ribeiro, texto publicado originalmente no site do Jornal O Globo

O primeiro retrato dos negócios de impacto social e ambiental no Brasil mostra que, apesar do potencial do segmento, o crédito ainda é o principal entrave. Pouco mais de um terço dos empreendimentos busca captar um volume de até R$ 200 mil, de acordo com mapeamento do setor feito pela plataforma Pipe.Social, que permite a conexão com investidores e aceleradoras.

— Consultamos 579 negócios para o mapeamento, que mostrou que 79% dos empreendimentos estão captando recursos. Mais de um terço (38%) precisa de até R$ 200 mil, e outros 33% buscam entre R$ 200 mil e R$ 1 milhão — diz Carolina Aranha, uma das sócias-fundadoras da Pipe.Social, destacando que o financiamento é a ajuda apontada como mais urgente por quase metade (46%) dos negócios.

Leonardo Letelier, da SITAWI Finanças do Bem, organização sem fins lucrativos que capta recursos para doações e empréstimos destinados a ONGs e negócios sociais, pondera que o empréstimo, na fase inicial do projeto, é um problema:

— No começo de um negócio social, o empréstimo é mais um peso que uma solução, pois, ainda sem receita, a empresa terá o compromisso de pagar. É preciso um capital mais paciente. A média dos investidores de impacto está disposto a botar R$ 1,4 milhão por aporte. Mas as empresas querem até R$ 200 mil ou R$ 1 milhão.

Em sete anos, a SITAWI permitiu a alocação de R$ 10 milhões em 50 ONGs e negócios sociais.

— A maior parte desses negócios não consegue dinheiro no banco por falta de garantias e acaba pagando taxas mais altas. Nós oferecemos crédito com juros reduzidos. Em dois meses, vamos fazer o primeiro piloto oferecendo garantia a projetos interessados em tomar empréstimo no mercado.

A organização vai dar início ao teste de um dos propósitos articulados pela Força Tarefa em Finanças Sociais, que congrega 22 institutos e fundações. Este ano, houve aporte de R$ 700 mil em um fundo que será usado em iniciativas de aprendizado em negócios de impacto.

— Queremos experimentar mecanismos de finanças sociais, como o garantidor de negócios sociais na tomada de crédito — diz Célia Cruz, membro da diretoria executiva da Força Tarefa.

Também o governo já caminha nesse sentido. O Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços criou um grupo de trabalho em agosto, em parceria com outros órgãos do governo, para discutir formas de ampliar o número de negócios de impacto social e os investimentos no segmento, explica Igor Nazareth, diretor do Departamento de Inovação e Empreendedorismo da pasta:

— Vamos caminhar para a elaboração de uma política ou plano nacional de finanças sociais e negócios de impacto social, mas ainda não há previsão sobre quando sairá.

Rita Afonso, professora da Faculdade de Administração da UFRJ, alerta para a importância do apoio a iniciativas de impacto que não são negócios.

— A inovação social tenta resolver o que não está atendido. Depois, alguém se apropria e transforma em política pública. E isso demanda investimentos.

REFORMA DE BAIXO CUSTO

Há iniciativas que casam doação e negócio, caso da Vivenda, start-up que realiza reformas de custo reduzido em residências de famílias de baixa renda.O historiador Marcelo Coelho, o administrador Fernando Assad e o arquiteto Igiano Lima perceberam que, pela falta de recursos, essas pessoas recorriam a mão de obra não qualificada na hora de fazer obras em casa.

A Vivenda vende soluções prontas para reformas de cozinhas e banheiros, principalmente, a um custo médio de R$ 5 mil. Tudo parcelado em até 30 vezes.

— Cobramos dentro daquilo que as pessoas têm condições de pagar. A prestação fica entre R$ 150 e R$ 300 — diz Coelho.

20170723 O Globo Financas Sociais

Arquiteta da Vivenda acompanha reforma de cliente – Marcos Alves / Agência O Globo

Em paralelo, a Vivenda atende pessoas em situação de risco social, como deficientes físicos ou idosos com dificuldade de locomoção e sem acesso a benefícios sociais. Nesses casos, os projetos são executados com a ajuda de parceiros, que arcam com o custo da reforma.

— Esse modelo representa 30% das nossas reformas. E pode ser replicado para outros partes do país — conta ele.

Leia mais: https://glo.bo/2uRw5RG

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