Princípios ASG na berlinda

Publicada originalmente na edição de novembro da Revista Investidor Institucional

No delicado cenário político que o Brasil pode ter pela frente a partir de 2019, temas de responsabilidade social e meio ambiente aparecem como de importância muito relativa. Ainda durante a campanha eleitoral, a chapa do agora presidente eleito Jair Bolsonaro já falava em deixar o acordo de Paris sobre alterações climáticas, extinguir órgãos de fiscalização ambiental e reduzir prazos para concessão de licenciamento ambiental, além de ampliação de novas áreas para desmatamento. A proposta de fusão do Ministério do Meio Ambiente com o Ministério da Agricultura, que também foi cogitada, foi descartada nas primeiras semanas pela equipe de transição.

Para o head do PRI (Principles for Responsible Investment) no Brasil, Marcelo Seraphim, ignorar a importância dos temas ambientais é um equívoco. “Não se trata de ativismo, os investidores estão olhando o gerenciamento de riscos ASG (ambientais, sociais e de governança) em busca das oportunidades que a economia de baixo carbono tende a proporcionar”. Na visão de gestores e especialistas, a disseminação dos princípios ASG atingiu tal dimensão que sua adoção independe da vontade dos governos. “Na indústria de alimentação, por exemplo, as exigências do novo padrão de consumo levaram as companhias a incorporar novas demandas, e o mesmo já está acontecendo na indústria automotiva no caso dos veículos elétricos contra o diesel, uma realidade em economias maduras”, explica o responsável pelas estratégias beta & integração ESG da Itaú Asset Management (IAM), Renato Eid Tucci.

As empresas investidas que seguem esses princípios têm conseguido melhores posições de mercado, graças ao comportamento dos consumidores e investidores avalia Tucci. “E não estamos falando de alimentos orgânicos, mas de empresas tradicionais que se reposicionaram para manter o market share e absorveram aspectos de responsabilidade ambiental”, diz. A IAM, que incorpora os filtros ASG à sua análise de portfolio há 13 anos, aposta no engajamento de investidores e empresas como fator de redução da distância entre os dois lados. “No Brasil, sabemos que o cenário é desafiador a partir de 2019”, admite Marcelo Seraphim. No entanto, o PRI é uma plataforma feita pelos investidores e para os investidores, com pouca influência dos governos. “Os projetos de engajamento e os eventos de promoção do investimento responsável continuarão independentemente de quem estiver administrando o País”, diz Seraphim.

O caso Trump – O novo governo brasileiro tem postura semelhante à do governo Trump, nos EUA, ambos contrariando as dos respectivos governos anteriores nos quesitos sociais e ambientais, enfatiza Tucci. “E no entanto, desde que Trump assumiu o tema do investimento sustentável só cresceu nos EUA, porque a consciência do investidor e do consumidor mantêm a exigência de um reposicionamento das empresas”. Segundo o gestor, “há um limite para a influência exercida sobre o governo”. Gestores e investidores institucionais, entretanto, tem forçado esse limite. “Essa agenda vai ganhar força de modo a padronizar ações e conhecimentos rumo à Agenda 2030 das Nações Unidas”, espera Tucci.

Os dados mais recentes da Global Sustainable Investment Review apontavam que 26,3% dos recursos administrados profissionalmente no mundo já seguiam alguns dos critérios ASG em 2016. Segundo a analista de Investimentos da Santander Asset Management, Luzia Hirata, as empresas brasileiras não vão deixar de atender as novas demandas por uma questão de sobrevivência. “Nosso papel como gestores será pinçar as boas companhias, tentando engajar aquelas que nos interessam mas ainda não são boas dentro de padrões ASG”. Para ela, as pressões devem continuar crescendo e o governo não poderá fugir muito disso. Também não conseguirá impor mudanças em projetos já existentes. Segundo o consultor florestal da Claritas Investimentos, Helton Lopes, as mudanças legislativas produzem efeitos à frente mas não afetam projetos existentes. A Claritas investe em florestas comerciais sustentáveis no Brasil e em diversos países do mundo. “As pressões ambientais são importantes para mostrar aos governos que as pessoas estão preocupadas em preservar para as gerações futuras”, diz Lopes.

Pimentel: 2019 deve trazer a volta das grandes emissões de green bonds

Engajamento – Segundo o diretor da Sitawi Finanças do Bem, Gustavo Pimentel, o ano de 2019 terá todas as condições para trazer a volta das grandes emissões de green bonds, que haviam crescido em 2017 mas viveram uma “ressaca” este ano por conta da instabilidade do cenário eleitoral. Os negócios com green bonds estão focados principalmente em energia eólica, transmissão de energia, papel e celulose e bancos. “Houve apenas duas emissões neste ano, muitas acabaram não saindo do papel”, diz.

A atuação do PRI, que já conta 50 signatários no Brasil, direcionou seu esforço em 2018 ao engajamento dos investidores para tentar melhorar padrões ASG nas empresas investidas. Além de pesquisa com os signatários, na qual eles descrevem suas estratégias e práticas de investimentos responsáveis, o PRI também participa de diversos fóruns de discussão, como a Iniciativa Brasileira de Finanças Verdes, para desenvolver e promover o mercado de títulos verdes no Brasil, e do Carbon Disclosure Project (CDP), divulgando emissões de gases do efeito estufa por parte das empresas.

Os fundos de pensão brasileiros, representados pela Abrapp, tem participação relevante no CDP e a Abrapp ocupa a presidência do Conselho Consultivo do órgão, explica o vice-presidente da associação, Luiz Paulo Brasizza. “O CDP faz um trabalho muito importante de certificação de carbono e traz subsídios para os investimentos por meio de seu banco de dados de empresas, que é o maior do mundo”, diz Brasizza.

Métricas – As métricas ou KPI (Key Performance Indicators) utilizadas nos projetos de engajamento dependem do setor e do tema em questão, explica Seraphim. No caso de geração de resíduos na indústria alimentícia e de bebidas, por exemplo, tem-se informações sobre a geração direta de gases de efeito estufa e o quanto se gasta para manter a planta industrial dentro dos limites de emissão. Os investidores brasileiros dispõem de ferramentas para estimar as emissões de gases de efeito estufa conforme a composição de seu portfolio.

O PACTA (Paris Agreement Capital Transition Assessment), cuja elaboração teve apoio do PRI, é uma delas e é particularmente útil no caso de empresas que ainda não divulgam os dados de impacto no meio ambiente, dificultando a análise do investidor. “Com dados em mãos é possível estabelecer objetivos de redução de emissão de gases do efeito estufa de acordo com o portfolio projetado”, destaca Seraphim.

Um dos aspectos mais tênues dos investimentos responsáveis está na impossibilidade de medir o seu desempenho em termos de retorno financeiro direto. “Ainda não há como fazer a correlação entre rentabilidade e aplicação dos princípios ASG, porque eles não são uma metodologia milagrosa”, avalia Luzia Hirata.

O uso de benchmarks precisa ser muito cuidadoso e não pode ser uma ferramenta isolada. “É preciso ter cuidado para não minar a integração ASG”, alerta Tucci. Segundo ele, embora tenhamos índices bem estruturados na bolsa brasileira, como o ISE e o IGC, há uma grande amplitude de ativos globalmente e o importante é fazer uma integração adequada dos princípios ASG aos portfolios.

Regulação – Com a nova regulação de investimentos das Entidades de Previdência Complementar Fechada, a Resolução CMN nº 4.661, o assunto ganha força porque a norma traz um apontamento claro dos princípios ASG a serem observados pelas entidades e pelos gestores terceirizados. “A Abrapp já é grande apoiadora das principais iniciativas nessa área, mas agora estamos nos preparando para anunciar uma Política de Sustentabilidade do sistema de EFPC, que será lançada entre o final deste ano e o começo do próximo” informa Luiz Paulo Brasizza. O documento será norteador de todos os trabalhos no âmbito do comitê de sustentabilidade. Em setembro, o comitê de sustentabilidade da Abrapp lançou o Guia de Equidade de Gênero e Raça. Segundo a coordenadora do comitê, Raquel Castelpoggi, os fundos de pensão são os grandes influenciadores das empresas nos padrões ASG. “É importante que os empresários, no mínimo, parem para pensar nos temas que estamos propondo”.

Mudanças climáticas – A Itaú Asset Management traduz sua integração ASG para o universo terá através de 17 ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), criados pelas Nações Unidas em 2015. Através desses 17 ODS, que combinam 169 metas e 230 indicadores, a asset processa a análise e avaliação de empresas -tanto na renda fixa quanto na renda variável. Todo processo é detalhado em white papers cujos dados são abertos ao público.

O mais recente deles avalia os impactos das mudanças climáticas na atividade econômica, abordando temas ambientais intersetoriais que incluem as questões dos resíduos, água, biodiversidade e mudanças climáticas. “No Brasil, a gestão de resíduos e o uso da água são questões latentes, assim como as da biodiversidade e do uso da terra”, explica Tucci. Os efeitos do aquecimento global sobre as mudanças climáticas, entretanto, são o ponto chave de todo o debate já que não há mais como questionar essa relação. “É uma realidade que as pessoas sofrem diretamente, como os incêndios incontroláveis na costa oeste dos EUA e em Portugal, enchentes nos Países Baixos, estiagens que afetam a atividade agrícola, enfim já são elementos do dia a dia do planeta”.

Precificação – Segundo Tucci, é vital saber como as companhias investidas redirecionam seus processos produtivos e serviços para enfrentar essas questões. “A mudança climática é um tema transversal, com impacto em diversos setores da economia e no momento é preciso saber, por exemplo, como o Brasil vai se posicionar em relação à precificação do carbono, um item bastante complexo”, sublinha. “O país vai criar seu próprio mercado de carbono?” A precificação hoje é bastante irregular, indo desde centavos de dólar até centenas de dólar. A Europa viu uma alta forte nesses preços, que subiram de oito para 20 euros desde o começo deste ano, ou seja, um crescimento de 250% só neste ano. Por isso é fundamental que os setores de energia e materiais tracem estratégias para superar os desafios decorrentes da precificação de carbono no Brasil.

De acordo com o CDP, das 517 empresas de todo o mundo que atualmente utilizam um preço interno do carbono, somente 15 são brasileiras. Transparência contra acidentes – O foco ambiental dos investimentos da Santander Asset Management é duplo: por um lado mapeia os riscos de acidentes e por outro avalia os efeitos das mudanças climáticas. No caso dos acidentes, apesar das divulgações positivas dos balanços das companhias, é possível identificar acidentes que poderiam ter sido evitados, como o da Samarco em Minas, lembra Luzia Hirata. Segundo ela, a transparência total é o único caminho para evitar episódios como aquele, mas os relatórios de sustentabilidade das empresas ainda não permitem identificar adequadamente esses riscos, diz Hirata. “Temos que procurar meios adicionais, avaliando relatórios feitos pelas ONGs reconhecidas e independentes, ouvir especialistas e mapear as informações fornecidas pela mídia”.

Quanto às mudanças climáticas, é certo que o esforço global que se faz desde 2016 tem maior repercussão lá fora do que no Brasil, mas os gestores terão que cobrar cada vez mais das companhias locais, avisa a analista. Ainda há dificuldade com as métricas utilizadas para avaliar performance dos investimentos ASG. “Esse não é apenas um problema brasileiro, mas mundial, até porque muitos fundos de investimento ainda usam a sustentabilidade apenas como apelo de marketing”, reclama Hirata. Compromisso e potencial – Apesar disso, o mercado está se movendo para ter cada vez maior integração ASG e algumas tendências são nítidas.

A principal delas vai em direção a empresas que saibam fazer a transição para uma economia de baixo carbono – com estrutura mais sustentável – e energias renováveis. “Isso não significa necessariamente que haverá resultados financeiros melhores para determinados portfolios, mas sim que estão comprometidos com as companhias que tem maior potencial de crescimento nessas novas condições”, afirma a analista. Hirata acredita que houve um discreto movimento das companhias brasileiras nesse sentido em 2018 e algumas delas já começam a perguntar aos gestores como são vistas sob o ponto de vista ASG. “Mas a verdade é que os fundos de pensão ainda não pressionam as empresas o suficiente, o assunto está na fase do debate e das boas intenções mas isso não basta”.

Para a Santander Asset, 2019 será o momento de buscar estratégias ASG que estejam alinhadas aos objetivos da instituição, como fundos de debêntures incentivadas com filtros de empresas ligadas a energias renováveis, baixo carbono e infraestrutura sustentável. Mas a realidade doméstica traz limitações. “Descarbonizar os portfolios é um assunto corriqueiro lá fora, mas aqui fica difícil quando olhamos para a nossa bolsa e vemos a forte concentração em óleo e gás”, afirma Hirata.

Os dados sobre o aquecimento global mostram que será necessário um avanço rápido e mudanças sem precedentes em todos os aspectos da sociedade, segundo aponta o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) em seu novo relatório. Alguns setores serão mais beneficiados, como por exemplo o setor de papel e celulose, que é superavitário em carbono, enquanto o setor de energia tende a sofrer maior impacto negativo à medida que aquecimento global aumenta, bem como a agricultura. Os maiores impactos deverão recair sobre petróleo e gás, siderurgia e geração termelétrica.

O plantio de florestas comerciais de eucaliptos e pinus para abastecer a indústria de papel e elc ulose também segue as pegadas ambiental e social. A Claritas Investimentos, com R$ 531 milhões em ativos florestais sob gestão no país, obedece normas globais de responsabilidade ambiental e social. “Temos acima de tudo a preocupação com um sistema que envolve as comunidades e o meio ambiente, as pessoas tendem a permanecer em suas comunidades e contribuem para preservar a parte da mata nativa”, explica Lopes.

Pegada avança – O ASG é incorporado aos portfolios da BBDTVM principalmente pelos padrões de sustentabilidade e governança da B3. A BBDTVM mantém um fundo ISE e também um novíssimo fundo temático de retorno absoluto lastreado em ativos de empresas que buscam a equidade de gênero, lançado em setembro, explica o gestor de fundos de ações ativos da instituição, Vinícius Vieira. A carteira tem ativos de 18 das 23 empresas brasileiras signatárias dos princípios de empoderamento feminino da ONU, e cinco BDRs. Além desses drivers de sustentabilidade, ela é filtrada por análise fundamentalista que ajuda a identificar as melhores oportunidades.

A métrica de avaliação de performance dos investimentos ASG segue um conjunto de fatores difícil de isolar, diz Vieira. Ele cita a dificuldade de utilizar como benchmark o Ibovespa, em função da sua alta concentração em papéis de commodities e bancos, assim como o ISE, cujos papéis são focadas no longo prazo. Mas “a pegada de sustentabilidade continuará a crescer a nível global”, acredita o gestor.