Operações sustentáveis de crédito no Brasil devem alcançar a marca de R$ 100 bilhões em 2021

O Brasil se aproxima da marca de R$ 78 bilhões em operações rotuladas no mês de outubro. A expectativa é que o país ultrapasse R$ 100 bilhões em emissões ainda este ano, aponta Gustavo Pimentel, diretor-executivo da SITAWI Finanças do Bem. Desde 2015, 168 operações sustentáveis de crédito já aconteceram no país, mobilizando R$ 131 bilhões. Desse montante, 66% das avaliações externas foram realizadas pela SITAWI. No mercado doméstico, esse market share ultrapassa os 80%. Pimentel conta sobre o desenvolvimento da maior prática de avaliação de títulos rotulados do país. 

“O mercado de operações sustentáveis de crédito está bombando no Brasil e, por trás dele, a SITAWI tem um papel fundamental. Comecei a ouvir falar de green bonds (títulos verdes) em 2012 e, dois anos depois, realizamos o primeiro evento sobre o tema no Brasil”, aponta Pimentel. 

Os dados parciais de 2021 demonstram um aumento de 157% no volume total de emissões em relação ao ano anterior. Já o número de operações cresceu 107% no período, totalizando 89 até 08 de outubro. Globalmente, o mercado de títulos rotulados movimentou USD 750 bilhões e, no acumulado histórico, esse montante já ultrapassa USD 2 trilhões.  

Pioneirismo e fomento ao mercado de títulos verdes 

Pimentel acredita que essa sensibilização do tema no Brasil incentivou a realização da primeira operação no país pela BRF no valor de 500 milhões de euros, em 2015. No ano seguinte, a SITAWI fez a avaliação externa da primeira debênture verde emitida pela CPFL Renováveis, com certificação da Climate Bonds Initiative, inaugurando a prática no mercado doméstico, que é também a primeira operação a completar o seu ciclo de vencimento. Parte desta trajetória foi destaque na Coluna Capital do Jornal O Globo, em entrevista exclusiva com Gustavo Pimentel.  

Para a escalada dessas emissões, algumas etapas foram emblemáticas para o amadurecimento dos atores e padronização dos instrumentos. 

Em 2018, a SITAWI produziu o guia “Não Perca Esse Bond”, com o apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS). O material analisou setores-chave da economia brasileira e serviu durante anos como uma taxonomia que orientou e orienta empresas e instituições financeiras no desenvolvimento de novas operações.

 

“A SITAWI teve um protagonismo na promoção do conceito de títulos verdes no Brasil. Produzimos eventos, escrevemos artigos e desenvolvemos publicações. Desenvolvemos também o chapéu de avaliador externo, pois já tínhamos uma prática de análise do desempenho ASG de empresas. Criamos a metodologia e, no processo de engajar os emissores, começamos a nos posicionar como player do mercado. Já emitimos pareceres para mais de R$ 30 bilhões em operações”, destaca Pimentel.   

Outro marco importante foi o lançamento do Guia para emissão de títulos verdes no Brasil em 2016, uma iniciativa da Federação Brasileira de Bancos – Febraban e Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável – CEBDS, com apoio técnico da SITAWI Finanças do Bem.

Amadurecimento e diversificação de setores 

Para Fernando Malta, gerente de negócios de Finanças Sustentáveis da SITAWI, é possível observar um salto no número de operações nos últimos anos. Esse crescimento demonstra o amadurecimento do mercado, afirma o especialista.   

“Passamos de uma prática quase inexistente, para um mercado com crescimento robusto e, nos últimos anos, exponencial. No início as emissões eram mais pontuais, de empresas testando o mecanismo. Sempre de setores mais óbvios como energia renovável, principalmente eólica. Em 2019, o ecossistema ganhou uma robustez e uma maturidade que o tem acompanhado. Atualmente, observamos uma dinâmica mais pulverizada em setores não tão óbvios”, avalia Malta. 

A emissão da primeira debênture social da Alume é um exemplo dessa diversificação. A captação no valor de R$ 24 milhões, com avaliação independente da SITAWI, direcionou recursos para financiamento estudantil e empréstimo pessoal para auxílio no custo de vida de estudantes de graduação em medicina.

O setor de energia é destinatário de um terço dos recursos dessas operações, seguido pelo financeiro que compreende 13,1%. De acordo com informações da Base de Dados de Títulos Verdes, projetos de bioenergia figuram em terceiro lugar na alocação dos recursos, com 11,3%. A SITAWI foi responsável pela avaliação independente de 14 das 16 operações que destinaram investimentos para projetos de bioenergia, realizadas por empresas como São Martinho, Tereos e Grupo Balbo. 

Novos instrumentos

Nos últimos anos, a SITAWI participou de emissões inéditas e entre elas, novos instrumentos de dívida baseados em desempenho (ou Sustainability-linked Bonds ou Loans – SLBs ou SLLs). No ano passado, as operações desse tipo representaram apenas 15% do total, mas em 2021 já são ⅔ do volume, ultrapassando R$ 50 bilhões. A tendência foi antecipada pela SITAWI no estudo Tendências de Finanças Sustentáveis no Brasil para 2021, lançado no início do ano. A expectativa é que esse instrumento continue predominante no Brasil nos próximos anos. 

Enquanto as emissões por uso de recursos já sinalizam que a captação será direcionada para projetos com adicionalidade ambiental e/ou social, as emissões atreladas a desempenho se focam em empresas que querem vincular seu financiamento ao progresso de sua jornada ASG. Elas assumem compromissos de melhoria de indicadores ASG corporativos materiais, sinalizando ao mercado que perseguirão  metas ambiciosas e robustas dentro de um tempo pré-determinado, com consequências econômicas no caso de (não) atingimento.

Já disseminadas na Europa e Estados Unidos, essas oportunidades vêm também sendo observadas por empresas que captam recursos internacionalmente, como foi o caso da Suzano, que, em 2020, levantou US$ 750 milhões com a menor taxa de sua história por meio da primeira operação baseada nos Sustainability-linked Bond Principles do mundo.

Receita dos bancos de investimento com operações ASG já supera transações de energia fóssil  

Em 2021, as transações ASG já renderam, globalmente, USD 3,6 bilhões de receita de serviço na estruturação e distribuição de dívidas sustentáveis frente a USD 1,8 bilhões em transações de energia fóssil, segundo dados divulgados pela Bloomberg. 

Pimentel relembra que nas primeiras emissões as próprias empresas acionavam a SITAWI para contratar o parecer de segunda opinião e, atualmente, esse contato já é feito majoritariamente pelos bancos de investimento, que identificam dentro de sua esteira comercial as operações que são potencialmente rotuláveis . 

“Queremos continuar sendo um player relevante na avaliação de emissões. O nosso espírito é manter altos padrões socioambientais, alinhados com a ciência. Tudo o que temos é nossa reputação, que não pode correr risco por questões comerciais. E, no final das contas, o verdadeiro cliente é o planeta, que precisa ficar melhor a cada operação ASG”, reforça Pimentel.