Gustavo Pimentel comenta o crescimento do interesse nos investimentos responsáveis, em entrevista ao Valor Econômico

Abaixo, reportagem publicada hoje no Jornal o Valor Econômico, com mais uma entrevista com o Diretor de Research & Advisory da SITAWI, Gustavo Pimentel, em sua participação no Seminário “Ação 2020 – soluções de negócios para um país sustentável”, promovido pelo CEBDS e o Valor Econômico.

É hora de soluções

Por Andrea Vialli | Para o Valor, de São Paulo

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Marina Grossi: “Ainda é difícil mensurar o resultado da sustentabilidade”
Motivos para as empresas incorporarem sustentabilidade às suas estratégias não faltam – entre eles, a própria dependência do negócio aos serviços ecossistêmicos (água, clima, solo), os riscos das mudanças climáticas, a demanda dos consumidores por empresas responsáveis, os ganhos em competitividade e a redução dos custos operacionais no médio e longo prazo. Embora o mercado, na última década, tenha sido inundado por uma avalanche de indicadores e métricas para mensurar o valor da sustentabilidade, ainda faltam incentivos para que as iniciativas ganhem escala e as questões socioambientais estejam no centro da tomada de decisões das companhias.

“Estamos no meio de uma jornada, em que as empresas estão aprendendo com suas ações. Mas ainda é difícil mensurar o resultado prático da sustentabilidade”, afirmou Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), na abertura do seminário “Ação 2020: Soluções de negócios para um país sustentável”, realizado pelo Valor e pela entidade, terça-feira, em São Paulo.

Segundo Marina Grossi, ao solicitar crédito a um banco, por exemplo, nem sempre a empresa “não suja” leva vantagem em relação à empresa “suja” – embora esse cenário esteja mudando. Grandes bancos que atuam no Brasil já possuem suas políticas voluntárias de avaliação de riscos socioambientais para grandes projetos de infraestrutura. E a questão já tem caráter regulatório: em abril deste ano, o Banco Central (BC) editou a Resolução 4.327, que estabelece diretrizes que devem ser observadas pelo setor financeiro em relação a políticas de responsabilidade socioambiental.

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Denise Hills: “Com a nova norma do BC, estamos vivendo um momento especial “

“Com a nova norma do BC, estamos vivendo um momento especial no setor financeiro. Quando vira regra, o movimento pela sustentabilidade se torna ainda mais relevante”, diz Denise Hills, superintendente de sustentabilidade do Itaú Unibanco. Primeira instituição financeira no Brasil a aderir aos Princípios do Equador, diretrizes socioambientais voluntárias no financiamento de grandes projetos, o Itaú concedeu R$ 1,8 bilhão em 2013 para projetos avaliados sob esses critérios. Outros R$ 2,08 bilhões foram para projetos que se enquadram nas políticas de avaliação de risco socioambiental: um total de 3.779 empresas teve seu desempenho socioambiental avaliado pelas equipes do banco, com metodologia própria, desenvolvida a partir de 2008. Segundo Hills, as políticas de sustentabilidade do banco hoje estão centradas em três pilares: educação financeira; critérios socioambientais na concessão de crédito e transparência.

Mas não é só na concessão de crédito que os critérios de responsabilidade socioambiental devem ser levados em conta. Na última década, vem crescendo o interesse de investidores do mercado de ações e dos fundos de pensão nos chamados investimentos responsáveis – alocados em empresas com boas práticas de governança e sustentabilidade. Em 2013, esse mercado movimentou US$ 13 trilhões em ativos, sendo 64,3 % desse montante só na Europa. No Brasil, o segmento ainda precisa amadurecer, na avaliação de Gustavo Pimentel, diretor da Sitawi Finanças do Bem, consultoria que atua na área de investimentos responsáveis. “O mercado tende a olhar sustentabilidade sempre como risco, não como oportunidade”, diz Pimentel. É essa abordagem – de evitar os riscos de reputação causados por uma empresa potencialmente poluidora, por exemplo -, que acaba influenciando a decisão do investidor de aportar recursos em empresas listadas nos índices de sustentabilidade das bolsas de valores. “Mesmo assim, 93% dos fundos de pensão brasileiros afirmam ter feito alguma ação no campo do investimento responsável, o que mostra aumento do interesse pelo tema.”

Para empresas do segmento industrial, o momento é de aprofundar a reflexão sobre como a sustentabilidade pode ser incorporada aos negócios e quais são as áreas prioritárias para atuação. É o caso do Grupo Boticário, de produtos de higiene pessoal e cosméticos. Com a expansão dos negócios da empresa a partir de 2010, que criou quatro unidades de negócios – O Boticário, Eudora, Beauty Box e Quem Disse Berenice – o grupo com sede em Curitiba aproveitou para revisar sua política de

Canassa

Canassa: microrreformas para limpar arestas entre bancos, governo e empresas

Após um diagnóstico sobre os desafios futuros do mercado de beleza, que apontou 16 temas críticos, o grupo definiu uma estratégia de sustentabilidade com três focos prioritários até 2024: matérias-primas e embalagens (ciclo de vida e logística reversa), ecoeficiência e canais de venda (pontos de venda e revendedores). “Criamos uma ferramenta interna para medir a evolução nos critérios de sustentabilidade nos processos do grupo”, conta Malu Nunes, gerente de sustentabilidade do grupo.

O movimento de revisar a forma de atuação em prol de estratégias de sustentabilidade mais eficientes não é privilégio das indústrias ou do setor financeiro – até mesmo as organizações sem fins lucrativos estão mudando sua forma de atuar. Um exemplo é Conservação Internacional (CI), ONG ambientalista com 25 anos de atuação. Conhecida por disseminar o conceito de hotspot (locais de grande importância para a biodiversidade e criticamente ameaçados), a ONG passou de uma abordagem ambientalista tradicional, com foco em conservação, para uma postura mais pragmática, calcada em estudos sobre valoração dos serviços ecossistêmicos para ajudar empresas e governos a incorporar esse tipo de contabilidade nos negócios e nas políticas públicas. “Nosso papel hoje é conduzir discussões que levem à genuína incorporação do valor da sustentabilidade na tomada de decisões de negócios e nas contas públicas”, diz Cristiano Vilardo, diretor de política e estratégia da CI Brasil.

Fonte: http://www.valor.com.br/empresas/3670558/e-hora-de-solucoes#ixzz3BgbgBuLo