O panorama da filantropia na resposta à Covid-19 no Brasil e o papel dos fundos filantrópicos

Diante de um cenário sem precedentes, 2020 representou um marco para o setor da filantropia no Brasil. A mobilização da sociedade e a diversidade de formas de doar, como campanhas e Fundos Filantrópicos foram e ainda são fundamentais no combate à pandemia. O maior desafio agora será transformar essas práticas em um legado permanente.

Covid-19: a onda solidária 

De acordo com o Monitor de Doações Covid, iniciativa da Associação Brasileira de Captação de Recursos (ABCR) apoiada pela SITAWI, chegamos a um montante de mais de R$6,5 bilhões  doados por mais de 570 mil doadores no último ano como resposta à Covid-19. No entanto, o auge dessa sensibilização se deu nos três primeiros meses da pandemia, com arrecadação de mais de R$5,7 bilhões até o fim de junho, impulsionada por distintos formatos de campanha como financiamentos coletivos – as famosas vaquinhas virtuais – lives beneficentes de artistas famosos,  fundos emergenciais, dentre outros. 

As causas que tiveram maior volume de doações recebidas: saúde e assistência social, seguidos por educação, ressaltam as desigualdades que foram escancaradas nesse período. A Covid-19 expôs a grave situação de boa parte da população em temas de necessidades básicas como moradia, acesso à água potável, alimentação e à tecnologia. Não bastasse todo esse cenário alarmante, o Brasil também sofreu desastres ambientais, como os incêndios na Amazônia e Pantanal, além do ritmo desenfreado dos desmatamentos nessas regiões.

Diante desse contexto emergencial, as doações entraram em pauta de maneira rápida e relevante, graças à colaboração entre diferentes atores, como o setor privado, as organizações sociais e diversas classes da sociedade civil.  Além disso, a rapidez no diagnóstico e o alcance das organizações sociais através de redes construídas há décadas foram essenciais para que os recursos chegassem à ponta na velocidade imposta pela crise.  

A cultura de doação no Brasil

Mesmo com o recorde de valores mobilizados na pandemia, temos um longo caminho a percorrer para promover  uma cultura de doação permanente no país. Historicamente, nos posicionamos distante do topo em rankings de maiores doadores. A pesquisa World Giving Index 2019, promovida pela Charities Aid Foundation (CAF), apresentou que em uma média apurada ao longo de 10 anos, o Brasil ocupa a posição 74 em um ranking de solidariedade com 140 países

Um dos fatores que influencia a cultura de doação é o conhecimento e a confiança da população em relação às iniciativas e organizações sociais. De acordo com a pesquisa Brazil Giving Report 2020, nos últimos anos a percepção da população em relação ao terceiro setor já estava em uma crescente, o que pode ter contribuído para o salto de doações. Segundo a pesquisa, oito em cada dez brasileiros afirmaram que as organizações sociais tiveram um impacto positivo no país como um todo (82% em 2019 contra 73% em 2018). 

Uma comunicação clara e transparente das atividades e resultados das organizações sociais foi apontada também como quesito determinante para o retorno dos doadores. Além disso, a capacidade de inovação do setor, através de campanhas virtuais, plataformas digitais e captações online por meio de contas bancárias ou cartão de crédito, é também um fator que já vinha estimulando positivamente o cenário da doação no Brasil. 

O boom dos Fundos Filantrópicos

A necessidade de agir com urgência em meio à  pandemia, acendeu o alerta para a demanda por saídas eficazes para gerenciar os recursos doados e garantir a transparência na prestação de contas. Nesse contexto, os Fundos Filantrópicos passaram a despertar maior atenção dos doadores, principalmente de organizações instituidoras, que buscavam um canal confiável e rápido para fazer as doações chegarem onde era preciso.

Como funcionam essas iniciativas?

Criados a partir da intenção de apoiar uma causa ou um projeto específico, nos Fundos Filantrópicos as doações podem vir de um único doador ou serem abertas a terceiros – pessoas físicas ou jurídicas, nacionais ou internacionais – doarem também. O objetivo do fundo filantrópico é atuar diretamente no percurso entre o capital doado e a entidade ou causa que irá recebê-lo, criando soluções para aumentar a eficácia e a transparência e garantir a entrega de acordo aos objetivos da iniciativa.

A SITAWI atua desde 2012, com a criação do primeiro fundo, utilizando sua expertise em gestão financeira na gestão dos recursos filantrópicos, o que possibilita ao instituidor mais tempo para focar nas estratégias e na execução da iniciativa. Uma vez estabelecidos os objetivos, assim como a governança, regras de desembolso e prestação de contas, a SITAWI  segrega as doações recebidas em uma conta e gerencia o balanço financeiro, enviando relatórios mensais e, podendo atuar também no aconselhamento estratégico para o impacto da iniciativa.

Como se caracteriza a atuação de um Fundo Filantrópico?

Além de solucionar a gestão dos recursos na prática com um alto nível de compliance, outro diferencial dos Fundos Filantrópicos é sua flexibilidade. Em um Fundo, o capital pode ser desembolsado de distintas maneiras como doações para organizações da sociedade civil ou pessoas físicas, pagamentos de despesas referentes à prestação de serviços, pesquisas, prêmios, entre outros diversos fins. 

Em 2020 essa característica se tornou ainda mais evidente nos fundos administrados pela SITAWI. Chegamos ao total de 32 fundos, 14 deles trabalhando diretamente na resposta à pandemia. Dentre estes últimos, os temas foram diversos e incluíram desde doação de Equipamentos de Proteção Individual – EPIs e recursos a instituições na linha de frente do combate à Covid-19, distribuição de alimentos orgânicos à populações vulneráveis, premiação às boas práticas, além de iniciativas voltadas às comunidades da região amazônica.

E como o recurso gerenciado gera impacto social e/ou ambiental?

Cada fundo tem objetivos definidos do impacto social ou ambiental almejado e eles são acordados entre o instituidor e a SITAWI. O Fundo Salvando Vidas, por exemplo, foi criado no marco da Covid-19 com o objetivo de levar suprimentos necessários a cerca de mil hospitais filantrópicos em todo o Brasil. A iniciativa contou com recursos de pessoas físicas e jurídicas através da lógica de ‘matchfunding’ – a cada R$ 1 doado pela sociedade civil ou por empresas, o BNDES, instituidor do Fundo, aportava mais R$ 1 até o limite de 50 milhões. Ao todo a campanha arrecadou aproximadamente R$80 milhões para a aquisição de material, insumos e equipamentos de proteção para os médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde da linha de frente.

Perspectivas para a filantropia no Brasil: o que esperar?

Prever um panorama futuro para o setor filantrópico é muito difícil. Diante de uma conjuntura ainda afetada diretamente pela pandemia e suas consequências na área social, certamente será preciso seguir estimulando um ambiente favorável à filantropia no país.  Como pôde ser visto em 2020, o fortalecimento da sociedade civil é determinante para uma atuação rápida frente a crises de grandes proporções. Por outro lado, com a pandemia, muitas organizações sociais aumentaram o escopo de suas atividades e ampliaram o atendimento à população, logo, irão precisar de recursos contínuos para que o trabalho permaneça em execução.

Após um evento de dimensão global, como o que estamos vivendo, a expectativa é que as ferramentas que se potencializaram nesse período como doações online, plataformas digitais e também os Fundos Filantrópicos, sigam em evolução, gerando maior confiança e colaboração para iniciativas e organizações do terceiro setor. Através da consolidação dessas práticas, se fortalece uma cultura de filantropia que prioriza o impacto das ações, a prestação de contas e estruturas mais duradouras de apoio à sociedade. 

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