Empréstimo, Doação, Investimento?

Rob Packer, Gestor de Fundos e Leonardo Letelier, CEO da SITAWI, escreveram artigo que joga luz sobre as perspectivas oferecidas pela SITAWI ao terceiro setor, em uma área do conhecimento ainda pouco explorada pelas organizações sem fins lucrativos no país: sua gestão financeira. Para conferir a versão do artigo publicada no portal EMPREENDEDOR SOCIAL, da Folha de S. Paulo, clique aqui.

“Apesar de comuns nos setores público e privado, a utilização de empréstimos ainda é incipiente no setor social, o que pode acabar suscitando incertezas sobre como usar esta forma de financiamento de maneira correta. Uma pergunta que recebemos com frequência na SITAWI é por que captar recursos via empréstimos se podemos captar doações (no caso de organizações sociais sem fins lucrativos). Ou ainda, por que pegar emprestado se podemos obter uma injeção de capital (pela venda de cotas ou ações, no caso de organizações com fins lucrativos)?

Na realidade, um não é melhor do que o outro, são formas de capital diferentes e, portanto, têm usos distintos: uma doação ou injeção de capital traz dinheiro “novo”, um empréstimo traz capital existente do futuro para o presente (é uma ponte “de tempo”, não de capital).

Focando no setor sem fins lucrativos, uma doação é uma forma de receita que aumenta o patrimônio da organização, mas gera expectativas de uso e reporte a quem aportou o capital. Já o empréstimo é uma compromisso firmado pela organização tomadora de que pagará de volta ao emprestador. Desta forma, cria-se uma despesa financeira para a organização (no caso, os juros). Porém, essa é uma despesa que pode ajudar a fortalecer a organização.

Para o caso de um empréstimo, é importante  que a organização tenha identificadas as suas receitas, pois, como veremos, um dos usos mais comuns do financiamento da SITAWI funciona como uma espécie de “empréstimo ponte”. Vamos analisar esse caso com um pouco mais  de detalhe. Por exemplo, uma organização que apoia artesãos a gerar renda através da construção de pontes com varejistas assinou um contrato para uma venda de mil peças para uma rede de lojas que paga noventa dias após a entrega. Para atender à demanda, a organização deve comprar matéria prima, pagar as pessoas envolvidas, arcar com outros gastos associados, efetuar a entrega e ainda esperar mais noventa dias para receber pelo produto entregue – totalizando um ‘descasamento’ de 120 a 180 dias entre a  saída e entrada de capital.  Tudo isso coloca mais pressão em cima de um recurso já escasso nas organizações sociais : o dinheiro.

Nesse exemplo, uma organização pode gastar capital doado (que estava na sua reserva de capital) ou capital emprestado; mas qual a diferença? Usando doações, a organização economiza os juros, mas usa a reserva como capital de giro, o que equivale a deixar o dinheiro “fora de casa” até o final do contrato com a rede varejista. Nesse tempo (que, no exemplo é de até 180 dias), a organização não pode usar a reserva para sua expansão ou investimento na organização. Além disso, se expõe a outros  imprevistos, como atrasos no pagamento por parte do varejista, demoras no desembolso de outras doações esperadas, ou poderia ainda perder uma segunda oportunidade inesperada.

Em outras palavras, um empréstimo é adequado para resolver uma necessidade temporária de fluxo de caixa, de forma flexível. Além disso, no caso de um empréstimo socioambiental da SITAWI, há outros benefícios, como acesso ao aconselhamento estratégico ou nosso network de doadores e parceiros. Dependendo do tamanho da organização, o rendimento financeiro sobre os recursos em reservas pode também ajudar no pagamento dos juros, minimizando o desembolso “líquido” e melhorando ainda mais a relação custo-benefício. No longo prazo, ter tomado e quitado um empréstimo pode gerar confiança adicional na organização, agregando valor ao histórico e abrindo novas oportunidades para a organização.

Na SITAWI, acreditamos que um empréstimo é uma ferramenta que amplia a oferta de produtos financeiros disponíveis às organizações sociais, complementando (não substituindo) doações ou geração de renda. É uma forma de dar mais flexibilidade e apoiar uma organização de sucesso a usar seus recursos financeiros de uma forma eficiente.”