“Crédito para a transição é limitado” – Valor 28/04/2016

A transição para um novo modelo de produção que respeite o Acordo do Clima, assinado em Paris em dezembro, implica mudanças e até a interrupção de processos produtivos movidos pela queima de combustíveis fósseis e adoção de fontes de energia renováveis para desacelerar a emissão de gases de efeito estufa.

Vai demandar um grande volume de investimentos, mas a fonte dos recursos é um campo em aberto. Um estudo produzido pelo Centro de Estudos de Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (CVcesFGV) para a federação dos bancos (Febraban) mostrou uma queda de 2% nos financiamentos bancários para projetos ambientalmente sustentáveis em 2014 comparado a 2013, para R$ 107,8 bilhões. Quase metade deste total foi aplicada em transporte sustentável. Outros 32% irrigaram projetos de energias renováveis e agricultura sustentável. A queda se deu principalmente pelo corte em projetos de energias renováveis, água e cidades (ver tabela), devido ao aprofundamento da crise econômica no ano passado.

Por outro lado, o levantamento mostrou que o montante de financiamentos desembolsados a setores potencialmente causadores de impactos ambientais também caiu, de R$ 408 bilhões para R$ 365 bilhões.

Enquanto isso, um projeto para emissão no Brasil de títulos de dívida específicos para a economia verde, os chamados títulos verdes (green bonds), aguarda regulamentação pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), acredita que este é o instrumento ideal para dar “visibilidade” às medidas ambientais tomadas pelas empresas. A entidade reúne 70 associados que representam 40% do Produto Interno Bruto do país.

Segundo o Climate Bonds Iniciative, o mercado internacional de títulos verdes saiu de US$ 11 bilhões em 2013 para US$ 41,8 bilhões em 2015. Até hoje apenas uma empresa brasileira emitiu green bonds a BRF, que captou US$ 500 milhões com investidores europeus no ano passado.

Para o engenheiro agrônomo Marco Antônio Fujihara, o desafio para ampliar os recursos disponíveis em mercado para a viabilização das metas do Acordo de Paris está em como mitigar os riscos percebidos pelo sistema financeiro. Fujihara, que desenvolve projetos de qualificação empresarial nos parâmetros do mercado de capitais lastreados em green bonds, pela consultoria Aggrego, afirma que ainda há muito trabalho a fazer para mudar essa visão. “As empresas do setor financeiro ainda veem a sustentabilidade como risco, mas a mudança de paradigma é transformar a percepção de risco em percepção de valor”, disse Fujihara, que também avalia projetos para o fundo Performa Key de Inovação e Meio Ambiente.

Ele diz que o momento é muito propício à emissão de títulos verdes. Com a perda do grau de investimento do Brasil pelas agências de “rating”, a sustentabilidade pode reduzir os riscos percebidos pelos investidores: ”Finanças sustentáveis são um instrumento para transformar risco em valor”.

Marina Grossi afirma que há interesse pelos papéis por parte de investidores, prova disso foi que a emissão da BRF teve uma demanda quatro vezes maior que a oferta. “É uma tendência, existe interesse (de investidores) para diversificação de portfólios”, aponta a presidente do Cebds.

Existem vários fundos de private equity e infraestrutura olhando para investimentos nessa área no Brasil. Mas os grandes investidores institucionais, os fundos de pensão, estão reticentes. É o que mostra um estudo realizada pela consultoria Sitawi, que mede o engajamento dos fundos de pensão com práticas sustentáveis, através de seus portfólios de investimentos.

O trabalho foi realizado com dados fornecidos obrigatoriamente (Resolução CMN 3792/09) pelos 50 maiores fundos de pensão brasileiros, com patrimônio líquido acima de R$ 2 bilhões (posição de dezembro de 2015). Segundo Gustavo Pimentel, diretor da SITAWI e responsável pelo estudo, quase todos os fundos são signatários dos Princípios para Investimentos Responsáveis (PRI).

ValorPorém, na análise que considerou apenas a carteira de renda variável (ações, créditos privados e investimentos estruturados), só dois fundos de pensão comprovaram alto engajamento na aplicação de critérios sustentáveis à gestão do portfólio. “A agenda (de adesão aos critérios de sustentabilidade) ficou estagnada, o que deve ser reflexo da conjuntura, do ambiente econômico complicado”, avalia Pimentel.

Um dos dois fundos de pensão é o Infraprev, multipatrocinado por empresas do setor aeroportuário. De seus quase R$ 3 bilhões em patrimônio líquido, 9,51% estão sob escrutínio para riscos ambientais, sociais e de governança, informou Carlos Frederico Aires Duque, diretorsuperintendente do Infraprev.

Fonte: Valor Econômico