Como financiar uma agricultura mais sustentável no Brasil

Estudo produzido pela SITAWI, em parceria com o WWF, aponta caminhos para alavancar recursos para zero conversão no setor 

A redução do desmatamento na agricultura está entre as ambições da Agenda 2030. Nesse contexto, a expectativa é que cadeias produtivas, como soja e pecuária, contem com instrumentos financeiros que incentivem uma atividade mais sustentável, a restauração dos ecossistemas e um melhor aproveitamento dos recursos. O tema é foco do estudo “Blended Finance para Zero conversão” produzido pela SITAWI em parceria com o WWF, disponível para download gratuito neste link

O relatório analisa soluções de financiamento e investimento para conter o desmatamento, e como mecanismos inovadores podem auxiliar na promoção de uma agricultura sustentável. Os resultados desse estudo foram apresentados durante a programação do Lab de Inovação Financeira na Semana Mundial do Investidor (WIW, do inglês World Investor Week). 

O conceito de blended finance consiste em uma abordagem de financiamento misto que faz uso de capital público ou filantrópico para estimular o investimento do setor privado, visando promover o desenvolvimento sustentável. O objetivo é diluir o risco e potencializar negócios e projetos com enfoque socioambiental, em geral atrelados a algum dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

A analista de Finanças Sustentáveis da SITAWI, Júlia Ferrato, responsável pelo levantamento, comentou que, atualmente, há uma lacuna de financiamento para a transição sustentável dessa atividade econômica. Dessa forma, o blended finance seria um caminho para superar o desafio da escassez de recursos para alavancar práticas regenerativas na agricultura. 

“Essas estruturas de blended finance têm potencial de destravar o capital privado, construir cases de sucesso e, com o tempo, ganhar escalabilidade”, destaca Ferrato. 

Potencial de crescimento do blended finance no país 

A analista destaca também que a combinação de recursos privados, públicos e filantrópicos podem reduzir o risco dos investimentos, melhorar a rentabilidade e aumentar a probabilidade de impacto social na cadeia produtiva. 

Ainda que as atividades de blended finance estejam crescendo globalmente, a participação da América Latina e Caribe neste tipo de finanças representa apenas 11% dos mais de 130 bilhões comprometidos em 2018, segundo dados da Convergence. A agricultura acessa 16%  entre os setores, ficando em quarto lugar após energia, serviços financeiros e a categoria geral. 

Na visão de Guilherme Teixeira, líder de consultoria ASG para instituições financeiras da SITAWI, é essencial a disseminação de conceitos no setor uma vez que ainda falta compreensão e intimidade com métricas no tema da biodiversidade. 

“Quando falamos de biodiversidade ainda há uma névoa para mensurar o impacto de mecanismos que sejam voltados para zero conversão”, destaca o executivo. 

Investimentos e soluções sustentáveis na agricultura 

Também participaram do painel virtual o sócio e responsável pelas estratégias de crédito sustentável da JGP, José Pugas, o diretor de investimentos da Mirova Natural Capital, Nick Oakes, e o vice-presidente ASG para América Latina da GEF Capital Partners, Tiago Gomes. 

Os especialistas compartilharam suas experiências no campo e trouxeram percepções sobre possíveis estratégias para blended finance. Segundo José Pugas, da JGP, a promoção de finanças sustentáveis é o único caminho viável para as casas de investimentos e gestores de ativos. O executivo destaca que esse olhar ESG tem sido determinante no desenvolvimento de produtos financeiros dentro da gestora. 

“Essa é a única tese de investimento que sobreviverá nos próximos anos. As demais estão fadadas ao fracasso. Investir em sustentabilidade é um dever fiduciário. Não existe economia sem planeta. Acreditamos muito no modelo do blended finance que consegue equilibrar o melhor de todos os mundos”, destaca Pugas. 

O investimento em cadeias sustentáveis e conservação já é uma prática global para a Mirova Natural Capital. Segundo Nick Oakes, executivo da gestora, a conservação das florestas, oceanos e solos são os focos principais de seus fundos de investimentos.

“A agricultura sustentável é uma grande oportunidade no Brasil pois tem potencial de gerar impacto socioambiental positivo. Há alguns anos, os índices de desmatamentos e degradação gerados pelas cadeias de alimentação e cosméticos eram altíssimos. Acreditamos que podemos virar essa cadeia através de investimentos em negócios inovadores e sustentáveis” para apoiar a transição para uma economia verde”, avalia Oakes. 

Participação do agro no PIB brasileiro 

De acordo com cálculos do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), em parceria com a CNA, em 2020 o agronegócio brasileiro alcançou participação de 26,6% no Produto Interno Bruto do Brasil, contra 20,5% em 2019. Já a participação do agro na soma dos bens e serviços do país em 1970 era de 7,5%

Com uma estratégia de investimentos temática, a GEF Capital Partners tem um portfólio focado nos setores de energia, soluções urbanas, alimentação saudável e agricultura sustentável. 

“A nossa tese de investimento do agronegócio está diretamente conectada às macrotendências como o crescimento e envelhecimento populacional, processo de urbanização e mudanças climáticas. Nesse sentido, acreditamos que nosso foco está na mitigação de riscos e no aproveitamento das oportunidades a partir dessas tendências”, explica Tiago Gomes. 

Baixe a publicação “Blended finance para zero conversão: Discussão sobre oportunidades de financiamento para produção agrícola sem desmatamento” aqui e assista o painel na íntegra neste link