Astronauta em Ipanema – Revista Gol

Por Amarílis Lage, da Revista Gol

Viajar pode ser uma experiência transformadora. Longe de casa, temos a chance de ajustar o olhar não só para o que é novo, mas também para nós mesmos e para o lar que ficou para trás. Foi o que aconteceu com o americano Chris Cassidy, 46 anos, em um de seus giros por aí. Com um detalhe: a viagem era espacial e seu destino, a ISS (Estação Espacial Internacional), que orbita a cerca de 400 quilômetros de distância da superfície terrestre.

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Olhando pela janela, ele teve um insight: se deu conta de como é pequena a atmosfera que envolve o planeta – “uma camada fininha, que você mal consegue ver”. E percebeu o risco que corremos. “Qualquer disrupção nessa camada seria como abrir um buraco na estação espacial – poderia matar a tripulação. No caso da Terra, a ‘tripulação’ é composta de mais de 7 bilhões de pessoas. Se não cuidarmos do planeta, controlando as emissões de carbono e as coisas que levam ao aquecimento global, tudo será destruído”, diz Cassidy, que ainda fez outra constatação. “Acho que todos os astronautas experimentam a sensação que diz respeito a quão pequenos nos sentimos quando estamos lá fora”, comenta ele, que entrou para a Nasa (agência espacial americana) em 2004.

Ser astronauta não era um sonho de infância. Primeiro filho de um casal de vendedores, cresceu em York, no Maine. Gostava de matemática e ciências, mas seu foco estava nos esportes – futebol americano, basquete, basebol. A corrida espacial, travada entre EUA e URSS, não chamava a sua atenção. “Lembro de ver o acidente com o ônibus espacial Challenger [em 1986], quando estava no high school, e pensar: ‘Caramba, como deve ser difícil ir para o espaço fazer tudo isso’.”

Formado em matemática pela Academia Naval Americana, Cassidy enveredou pelo estudo de engenharia oceânica ao cursar o mestrado no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e foi selecionado para a Seal, força de operações especiais da marinha americana – a sigla vem de sea, air e land, indicando que seus membros realizam missões no mar, no ar e na terra. Como integrante desse time de elite, foi enviado ao Afeganistão duas semanas após os atentados de 11 de setembro. Seu trabalho liderando as buscas no complexo de cavernas Zharwar Kili lhe rendeu uma estrela de bronze e a honraria “citação presidencial de unidade”.

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Cassidy foi o segundo Seal a entrar para a Nasa (apenas William Shepperd fez o mesmo, nos anos 80). E a experiência militar, conta, o ajudou na vida de astronauta. “Como militar, é preciso pensar passos à frente diante de uma situação e conciliar muitas coisas ao mesmo tempo: falar no rádio enquanto toma decisões, sem perder o que acontece ao redor. Isso tem muito a ver com o que um astronauta faz.”

Foram duas expedições até a ISS. A primeira, em 2009, durou 16 dias e contou com uma baita façanha: Cassidy e seus dois colegas conseguiram atracar na estação em 6 horas – tarefa que, até então, durava dois dias. A segunda missão, em 2013, prolongou-se por cinco meses. Nesse período, precisou sair para um spacewalk não planejado para repor uma bomba com vazamento e, em outra volta pelo espaço, teve que agir rápido para salvar o colega italiano Luca Parmitano de um vazamento de água dentro do capacete. Meses após seu retorno, ainda participou do Campeonato Mundial de Ironman, no Havaí. Não é por acaso que o site da Nasa o apresenta como “Chuck Norris, sem as restrições da gravidade”.

De volta à Terra – e promovido a diretor do departamento de astronautas da Nasa –, Cassidy elegeu a questão ambiental como um dos principais pontos das palestras que apresenta para líderes, empresários e crianças. No fim de 2016, colocou na mala seu macacão azul com emblema da Nasa e embarcou para o Brasil, após identificar no país iniciativas relacionadas a sustentabilidade, conservação e educação.

No Rio de Janeiro, conheceu a SITAWI Finanças do Bem (organização que mobiliza capital para impacto socioambiental positivo), a Escola Americana e o Museu do Amanhã, cuja proposta curatorial passa, justamente, pela questão da sustentabilidade ambiental. “O museu teve um grande impacto em mim. O design e o conceito são muito interessantes, mas só ao percorrê-lo é possível entender como é bem pensado: o fluxo que começa no cosmos, passa pelo planeta e chega aos desafios de hoje. É impressionante como apresentam dados complexos de modo simples”, diz Cassidy, num quiosque em Ipanema. “A última parte, que mostra como nossas escolhas levaram a mudanças drásticas, faz pensar como vivemos um momento crítico.”

Outro momento marcante foi a palestra na Biblioteca Parque da Rocinha, onde falou para 20170116_ccassidy_650 crianças, selecionadas por meio de um concurso de redação. O tema? “Se eu fosse um astronauta…” “Passo a mensagem de que qualquer pessoa pode fazer qualquer coisa. O Brasil não tem um programa espacial e tem um astronauta, o Marcos Pontes [que ficou dez dias na ISS em 2006]. Aparentemente, ele não tinha a possibilidade de ir para o espaço, mas foi. Você pode conquistar muitas coisas com foco e perseverança.”

Por trás da viagem ao Brasil, está a Spread Positivity – uma campanha sem fins lucrativos criada por seu irmão Jeff, 43. A iniciativa promove ações voltadas à interação real entre pessoas e ao desenvolvimento de aspectos como empatia. “Conseguimos levar Chris a uma série de locais que não teriam uma chance como essa”, conta ele, que já conhecia o Rio graças a amigos – “uma família expandida”. Voltem sempre.