Agenda em Alta – Revista Investidor Institucional

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À medida que se tornam mais visíveis os efeitos da irresponsabilidade socioambiental, as agendas que defendem a sustentabilidade se consolidam

O ano de 2017 não foi muito positivo para a área de sustentabilidade, principalmente pelos aspectos negativos das investigações que envolvem algumas grandes empresas e instituições com casos de corrupção. Apesar disso, as carteiras que dispõem de análise com base nos critérios ASG (voltados a ações de responsabilidade ambiental, social e de governança) ganharam força entre gestores e investidores sintonizados com as tendências globais. Nesse embalo, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) organizou o seu primeiro evento voltado ao debate de finanças sustentáveis e em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento lançou o LAB (Laboratório de Inovação Financeira), cujo objetivo é promover uma agenda de finanças sustentáveis. E no mercado de títulos verdes (green bonds), 2017 já é considerado um marco para esse tipo de negócio entre as empresas e bancos brasileiros, com o aumento substancial de players e emissões de grande porte.

As perspectivas seguem positivas, até porque será cada vez mais difícil dissociar a gestão de investimentos do conceito de responsabilidade ambiental, social e de governança. A preocupação começa a crescer à medida que ficam evidentes os riscos derivados da falta de uma agenda sustentável. Em 2017, esse debate veio para o centro das discussões de investimentos que começaram a considerar nas análises de risco também eventos ligados à mudanças climáticas, desmatamento, crises hídricas, alagamentos e incêndios florestais.

Millennials pressionam – Na questão da governança, o foco nunca foi tão grande na tentativa de preservar imagem corporativa e mitigar escândalos. Ainda que o mercado de capitais não tenha avançado de maneira efetiva para incorporar esses critérios, as iniciativas e debates se multiplicam e apontam uma tendência inexorável, segundo os especialistas. A mudança geracional é um fator importante, avisam eles. À medida que os “millennials” (pessoas hoje com idade entre 20 e 36 anos) amadurecem e se tornam os novos gestores, empreendedores, investidores e participantes de planos de previdência, a consciência da sustentabilidade invade necessariamente a seara das decisões de alocação. “Não se trata mais, como imaginava o mercado alguns anos atrás, de um grupo de malucos querendo abraçar árvores”, observa o gerente de portfólio da Itaú Asset Management e responsável pela integração ASG, Renato Eid.

As atuais métricas de avaliação de ativos já refletem o conceito ASG e o investidor não precisa abrir mão de retorno, como demonstram os retornos superiores dos índices ISE e IGC. “Não se trata de “fazer o bem” mas de gerar alfa efetivamente e os estudos mostram performances diferenciadas dos investimentos ASG”, avalia Eid. ‘É uma questão de minimizar riscos, gerar alfa e cumprir o dever fiduciário”. Na Itaú, mais de 90% do portfólio estão cobertos por análise ASG.

“A queda dos juros dos títulos públicos federais e o aumento do apetite dos institucionais pelo risco promete abrir espaço para abordagens que integrem os critérios ASG, com o objetivo de agregar valor às carteiras”, acredita o especialista em finanças sustentáveis e diretor da consultoria SITAWI Finanças do Bem, Gustavo Pimentel.

Globalmente, essa é uma preocupação dos investidores institucionais e a muitos gestores já colocam a gestão ASG como algo estrutural no seu trabalho, diz Renato Eid. Segundo ele, dos cinco principais riscos elencados pelo Fórum Mundial, três estão relacionados a mudanças climáticas que podem resultar em crises hídricas em várias partes do mundo, desastres naturais como os furacões em Porto Rico e nos EUA, incêndios em Portugal e na costa oeste dos EUA, enchentes na Irlanda etc.

“Os millennials estão extremamente atentos a isso nos processos de investimentos”, pontua o gestor. “Precisamos lembrar que em dez anos essas pessoas estarão presidindo as companhias”. Ainda de acordo com Eid, o dever fiduciário também exige do gestor que olhe para a perenidade dos negócios, não só para riscos e oportunidades. Não foi por outro motivo que entre 2012 e 2016 os investimentos ASG cresceram 133% nos Estados Unidos ou 24% ao ano. Atualmente, 25% do dinheiro gerido no mundo todo está de alguma forma atrelado a questões ASG, informa Eid.

A Itaú Asset mantém há treze anos um fundo ISE e desde 2008 é signatária do PRI, desenvolvendo ferramentas próprias que integram esse tipo de riscos e oportunidades ao processo de investimento. “Quando pensamos em negócios com microchips, por exemplo, que fornecem para a indústria automobilística, temos que analisar o que está acontecendo com os veículos elétricos e as oportunidades que eles representam, além de olhar para toda a sua cadeia de fornecedores e saber como eles poderão se beneficiar das mudanças”.

Mudanças de padrão – Capturar mudanças nos padrões de consumo é outro fator vital, assinala Eid. “Os produtos orgânicos, por exemplo, são um caso exemplar; há cinco anos eles eram “feios” e não atraiam o olhar do consumidor, hoje as decisões de investir em empresas do setor alimentar passam obrigatoriamente pela análise de seu portfólio de orgânicos”. As empresas que não se posicionaram corretamente lá atrás, terão maior dificuldade de obter financiamentos. Os produtores de açúcar são outro caso emblemático: à medida que a ingestão de açúcar passou a ser vista como um problema de saúde e custo adicional para os países, os portfólios muito concentrados nesse segmento entraram em baixa no radar dos investidores.

Isso força o reposicionamento de empresas alimentícias nas carteiras de investimentos. Na Itaú Asset, por exemplo, há oito dimensões de precificação aplicadas a clientes e fornecedores dessas companhias, que permitem identificar riscos e oportunidades e trazê-las a valor presente. “Temos poder de veto no comitê das carteiras de crédito e com isso conseguimos construir carteiras melhor posicionadas sob o ponto de vista ASG”, diz Eid.

A matriz utilizada pela gestora compara os índices tradicionais da Bolsa brasileira, por exemplo, ao ISE e ao IGC, notando que nos últimos dez anos esses tiveram melhores retornos com menores riscos. “Na conferência do PRI em Berlim, neste ano, ficou patente o esforço das companhias em mostrar sua transição de matriz energética e também a preocupação com a taxação de carbono”.

No Brasil, a maturidade ASG começa a crescer, embora os emergentes ainda estejam abaixo dos players europeus e dos americanos. Na Europa, essa é uma preocupação presente há muito tempo, mas nos EUA ela só começou a crescer mesmo de dois anos para cá.

Os “white papers” divulgados pela Itaú com modelos de integração ASG, na renda variável em 2013 e na renda fixa em 2014, apontam os efeitos das mudanças climáticas no Brasil. “Fica evidente a importância de olhar para as mudanças nos padrões de chuvas e seu impacto sobre a agropecuária extensiva e também os efeitos industriais”, lembra o analista ASG do Itaú, Alexandre Gazzotti.

Ainda há poucos ativos na Bovespa relacionados a esses temas. Mas em 2017 aconteceram algumas iniciativas importantes, como o lançamento do guia para para Seleção e Monitoramento de Gestor Terceirizado com Critérios ASG, uma iniciativa da comissão de sustentabilidade da Abrapp. Assim como o guia de Melhores Práticas de Equidade de Gênero e Raça para Entidades Fechadas de Previdência Complementar.

No âmbito da Febraban, o ano trouxe a parceria Brasil & Reino Unido em finanças verdes, e na CVM a SITAWI passou a coordenar um grupo para discussão dos títulos verdes. “Esperamos alguns saltos dos players institucionais, incluindo as EFPCs, que em 2017 ficaram retraídas por causa das investigações da PF que atrapalharam um pouco a agenda”, explica o diretor da consultoria SITAWI, Gustavo Pimentel.

Equidade racial e de gênero – O guia de Melhores Práticas de Equidade de Gênero, a ser distribuído em 2018, traz uma revisão do banco de dados utilizados por agências de publicidade e outras empresas de comunicação em suas campanhas. Substitui a linguagem sexista e representa melhor a miscigenação da população assim como a equidade de idade e raças. “Até algum tempo atrás essa linguagem estava longe de dizer respeito à realidade do País, esse foi um grande avanço”, explica a coordenadora da Comissão da Abrapp, Raquel Castelpoggi.

No mundo todo, há ações de equidade que pretendem reduzir a diferença no tratamento dado a mulheres e homens, assim como entre brancos e negros. O guia da Abrapp permite às entidades que que exijam, de seus fornecedores, o cumprimento dessas práticas. “Podemos dizer que o gato subiu no telhado e será cada vez mais importante cobrar essas mudanças”, diz Raquel.

No que se refere à equidade de gênero, já há uma série de estudos da ONU e do IPEA comprovando que empresas que colocam mulheres em cargos de gestão (Diretoria Executiva e Conselhos) obtém melhores rentabilidades”. Entretanto, na maioria delas as mulheres ainda não conseguem subir além do nível gerencial. A iniciativa do guia foi inspirada pelos critérios da premiação concedida pela ONU Mulheres, através de seus Princípios de Empoderamento das Mulheres, explica Raquel.

Agenda ganha tração – As iniciativas revelam que a agenda ASG ganha tração apesar das dificuldades, graças à constatação de que o retorno dos investimentos baseados nesses critérios é melhor no longo prazo, diz a coordenadora do PRI (Principles for Responsible Investment) para a América Latina, Tatiana Assali. “Temos visto uma crescente disposição para discutir o assunto e fatos como o lançamento do Código de Stewardship da Amec ajudam a movimentar essa agenda de maneira relevante”, avalia.

Em dezembro, o PRI organizou, junto à WWF (World Wildlife Foundation) um primeiro seminário sobre desmatamento para investidores, com a apresentação de um paper da FGV sobre florestas e a participação de entidades reguladoras. Em 2018, o PRI pretende ampliar a discussão sobre florestas e o papel dos investidores.

Os problemas ligados à governança costumam ficar em primeiro plano nas preocupações porque os riscos são maiores. “Quando os ativos são mal governados, fica difícil olhar os aspectos ambientais e sociais de uma empresa ou projeto”, diz a coordenadora do PRI. Segundo ela, “os impactos de problemas ambientais são fáceis de identificar mas sua mensuração é mais difícil, então os relatórios globais sobre mudanças climáticas procuram falar cada vez mais a linguagem do mercado de capitais para conscientizar os investidores”.

Carteira reconfigurada – A necessidade de abordar impactos socioambientais e de compliance de forma integrada já é uma realidade na Fundação Real Grandeza há aproximadamente sete anos. “Entendemos naquela ocasião que as questões sócio-ambientais e de compliance agregavam tanto risco quanto os indicadores econômico-financeiros e políticos”, explica o diretor de Investimentos da fundação, Eduardo Henrique Garcia.

De acordo com ele, a decisão de trazer os critérios ASG para dentro do processo de investimentos, mapeando e quantificando os riscos, exigiu estudos próprios já que não havia muito material disponível. As empresas candidatas a receberem investimentos da entidade são avaliadas em várias fases do seu processo industrial e também a posteriori dele. Elas também precisam responder se exigem de seus fornecedores o alinhamento aos critérios ASG. “É preciso saber como se relacionam com os resíduos dos produtos que lançam no mundo e se estão preocupadas com o uso adequado de seu produto, seja ela uma mineradora ou um banco”.

Perguntas ligadas ao uso consciente dos alimentos e descarte de celulares são cada vez mais presentes nos questionários a serem respondidos. “A incorporação dos critérios ASG pretende ajudar a criar um capitalismo mais humanizado, com maior segurança sistêmica e menos riscos, e isso tem tudo a ver com um fundo de pensão”, lembra Garcia.

Ele conta a como agenda ASG conseguiu evitar prejuízos importantes para a carteira de investimentos da FRG. Um dos casos mais significativos foi a recusa de investir numa empresa que acabou provocando derramamento de esgoto in natura nos mananciais, por exemplo. “Identificamos o risco desse impacto ambiental graças ao nosso Manual de seleção ASG, antes que o problema vazasse para a imprensa”.

Segundo a analista de investimentos sustentáveis da fundação, Marcia de Lucca Micheli, a FRG reconfigurou sua carteira de ações, eliminando empresas de segmentos nocivos à saúde como bebidas, tabaco, pornografia e jogos. Os filtros pegaram também empresas ligadas a trabalho escravo e trabalho infantil. A partir de 2015 essa filtragem passou a incluir riscos de imagem e a lei anticorrupção.

Essa reconfiguração exigiu a montagem de estratégias paralelas para compensar a exclusão e bloqueio de determinados ativos. Com isso, a fundação mitigou ou mesmo eliminou riscos importantes e manteve ou até mesmo elevou sua rentabilidade. Em 2016, a rentabilidade da Fundação foi de 23,7% contra uma meta atuarial de 12,7% e em 2017, até novembro, as metas também estavam sendo superadas.

Regulação e Autorregulação – Apesar da importância da regulação como estímulo às práticas ASG, essa tem sido, em todo o mundo, uma iniciativa dos próprios agentes do mercado por meio da autorregulação. “No Brasil, esse é um tema que também é mais disciplinado pela autorregulação do que pela regulação”, explica o coordenador de Educação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Claudio Maes.

A autarquia organizou em novembro o primeiro Seminário Brasileiro de Sustentabilidade e Investimento, em conjunto com a Anbima, o que foi compreendido como uma sinalização de interesse pelas questões ASG. Na opinião de Maes, esse é um movimento inevitável diante das inovações no mundo dos negócios e no sistema financeiro. Em 2012, a Bovespa convidou as companhias para que se manifestassem sobre o assunto e na ocasião 40% das empresas listadas aceitaram o “pratique ou explique”, percentual que subiu para 75% hoje. “Isso foi autorregulação na veia”, diz Maes.

Além disso, foi elaborada uma área específica sobre as práticas ASG, baseada no modelo “pratique ou explique”. A qualidade das informações prestadas, embora ainda não seja a ideal, tem melhorado, com mais empresas optando pelo “pratique” do que pelo “explique”.

Na CVM, o LAB (Laboratório de Inovação Financeira) em conjunto com a ABDE e o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), pretende atuar em três áreas: títulos verdes, finanças verdes e instrumentos financeiros e investimentos de impacto. A ideia é propor soluções efetivas para maximizar a alavancagem do mercado nesses segmentos de negócios.

O desenvolvimento dos critérios de sustentabilidade no Brasil ainda segue mais focado nas operações de crédito do que no mercado de capitais, avalia a coordenadora do Programa de Pesquisa Finanças Sustentáveis da FGV, Annelise Vendramini. Em 2017, houve um avanço na emissão dos títulos verdes, papéis de renda fixa com lastro socioambiental, mas ainda há muito a ser feito. “Os riscos ligados às questões ASG têm pesos diversos dependendo da materialidade que eles representam para o setor e a empresa, mas a governança é uma chave para todos eles”, observa Annelise. Na área ambiental, a Samarco virou um clássico entre as referências ASG.

Green bonds – No mercado brasileiro, 2017 foi o ano dos títulos verdes cujas emissões já haviam começado a acontecer por aqui desde o final de 2016. Esses títulos foram criados para lastrear projetos que envolvam benefícios nas áreas ambiental e/ou climática e a demanda dos investidores globais continua crescendo.

“O mercado brasileiro de títulos verdes finalmente começou a acontecer em 2017”, afirma Pimentel. Segundo relatório publicado anualmente pela Climate Bonds Initiative, comissionada pelo HSBC, o mercado de green bonds no país já atingiu US$ 3,67 bilhões graças às emissões de companhias nacionais. Entre junho de 2015, quando a BRF inaugurou esse mercado, até setembro de 2017, nove títulos verdes brasileiros haviam sido lançados, cinco dos quais no mercado internacional.

As emissões domésticas também foram relevantes este ano, lembra o diretor da Sitawi. Ao todo, foram mais de R$ 11,5 bilhões emitidos por empresas ou bancos brasileiros este ano. “Houve grandes emissões para o mercado internacional e as domésticas usaram instrumentos incentivados, com isenção fiscal, ou seja, esse estímulo acabou premiando as pessoas físicas e alijando os institucionais mas em 2018 a expectativa é de que as condições mudem e a oferta passe a atender os institucionais. “Temos discutidos as opções com o governo e a ideia é que ou os incentivos sejam retirados ou sejam estendidos a todos, além de outros instrumentos”.

Entre os destaques do ano, ele cita operações como a emissão no valor de US$ 1 bilhão feita pelo BNDES, US$ 500 milhões pela Klabin e US$ 700 milhões pela Fibria, entre outras, que foram muito bem recebidas pelos investidores internacionais. A partir de agora, a tendência é de que esses negócios cresçam e comecem a ter maior diversificação setorial, diz Pimentel.

O setor de energia eólica e energias renováveis são responsáveis por 42% das emissões, assim como agricultura e manejo sustentável de florestas, que aparece em segundo lugar com 24% das emissões. A expectativa é de que surjam oportunidades sustentáveis também em infraestrutura, bancos e agronegócio.

Matéria veiculada na edição 299 da Revista Investidor Institucional

 

O mercado de títulos verdes e a experiência da SITAWI

A SITAWI possui a maior prática de consultoria especializada em Finanças Sustentáveis da América Latina. Aconselhamos instituições financeiras – bancos, seguradoras, fundos de pensão, gestores de recursos e private equity – que desejam incorporar questões ambientais, sociais e de governança (ASG) em suas estratégias de negócios, elaboração de produtos, análise de riscos e investimentos. Somos a única organização brasileira com experiência em avaliação de títulos verdes, tendo atuado em 100% das emissões domésticas – incluindo CPFL, Enel, Ômega Energia, Rio Energy, PEC Energia e Suzano Papel e Celulose. Também contribuímos com o conteúdo técnico do Guia de Títulos Verdes da Febraban / CEBDS. Baixe apresentação sobre o tema neste link.

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