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Das favelas para grandes varejistas, uma economia solidária está crescendo.
Maria está trabalhando em sua nova máquina de costura. Ela acabou de terminar o trabalho do último lote de necessaires para a Lojas Renner, uma das principais varejistas de Moda e Acessorios do Brasil. O cômodo que ela usa como estúdio de trabalho está, literalmente, de cabeça para baixo. Pilhas de tecidos se acumulam por toda a sala e sacolas com uma estampa de borboleta são empilhadas no sofá.
Com 49 anos de idade, Maria afirma com orgulho: "No total, eu fiz 125 necessaires, e 150 sacolas".
Estamos na Vila Zumbi, uma favela perto de Curitiba, capital do Paraná, um estado no sul do Brasil. Durante 10 dias, Maria e os outros membros da Associação de Empreendedores de Zumbi dos Palmares (AEZP), especializados na produção de bolsas e artigos decorativos em tecido, trabalharam para concluir um pedido da Lojas Renner. As necessaires e sacolas, confeccionadas em duas estampas, estão disponíveis a partir desta semana, em 110 pontos de venda da Lojas Renner dentro do país. Os 45 associados da AEZP são, em sua maioria, moradores da Vila Zumbi. Como Maria, uma ex-empregada doméstica, todos possuem relativa baixa qualificação profissional e, conseqüentemente, estão condenados a assumir empregos de baixa remuneração. Alguns simplesmente são forçados a sair do mercado de trabalho. Hoje, essas mulheres são costureiras, e os homens são serigrafos. Todos foram qualificados pela Associação.
"A AEZP nasceu há cinco anos, porque nós não sabíamos onde vender os produtos que havíamos criado", lembra Diva Paganardi, fundadora da AEZP. "Nós dissemos para nós mesmos que juntos tudo seria mais fácil."
Durante 2 anos, no entanto, a associação estava vendendo pouco."Hoje, a demanda é tão alta, que estamos à procura de novos artesãos", diz Paganardi, animada. Graças a Solidarium, uma empresa de Comércio Justo através da qual a AEZP acessou grandes oportunidades como Lojas Renner e Wal-Mart, um grande varejista americano, assim como a rede de móveis franco-brasileira, Tok & Stok, as vendas decolaram.
Os números médios estão assim: 4.500 peças por mês para a Renner, 3.000 para o Wal-Mart; 350 para Tok & Stok. A AEZP produz cerca de 20% desta demanda mensal. O restante é produzido por outras 34 associações e cooperativas com quem a Solidarium trabalha.
PREÇO JUSTO. A Solidarium foi fundada em 2006 por alguns jovens de Curitiba. "Queríamos lucrar enquanto também contribuíamos para a inclusão social", explica Tiago Dalvi, 23 anos, o jovem presidente da Solidarium. Desde a eleição de Lula em 2003, a pobreza no Brasil diminuiu de forma significativa, sobretudo graças à ajuda financeira do Estado. Mas continua a afetar dezenas de milhões de brasileiros. Em um país marcado por desigualdades sociais muito profundas, o comércio justo, comumente interpretado como um intercâmbio entre os países do Norte e do Sul, não precisa atravessar fronteiras e se restringir para as classes sociais mais altas."No Brasil, o Comércio Justo é ainda desconhecido", repete Tiago Dalvi. "Queremos ajudar o maior número possível de produtores a vender seus produtos para grandes varejistas, os quais não seriam capazes de alcançar sozinhos."
Tais produtos são, normalmente, dependentes de intermediários. Muitos intermediários desonestos compram estes produtos a um preço muito baixo e os revendem inserindo altas margens, sem repassar tal ganho aos produtores. A Solidarium, por outro lado, estabelece um preço justo para o produtor. "O produtor ganha muito mais do que nós", especifica Dalvi. "A renda líquida gerada para os produtores representa entre 28 e 35% do preço final pago - a média do Comércio Justo tradicional é de 21% - em comparação com o lucro líquido da Solidarium que gira em torno de 5%. Nós preferimos vender mais e ganhar menos em cada unidade, do que o contrário.”
Tudo em respeito ao meio ambiente. As necessaires e sacolas confeccionadas para a Lojas Renner, por exemplo, são feitos a partir de tecido de PET e Vinil, materiais reciclados de garrafas usadas e banners”.
A Solidarium faz parte da Aliança Empreendedora, uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), fundada pelo mesmo grupo de jovens. Seu objetivo é apoiar microempreendedores de baixa renda e empreendimentos de base comunitária.
GARGALOS.
"Inicialmente, as pessoas iniciaram este tipo de empreendimento, em resposta ao desemprego", explica Fabio Sanchez, chefe da Economia Solidária no governo. "Hoje, eles estão fazendo isso principalmente pela escolha." A Secretaria de Economia Solidária, criada por Lula, tem implementado políticas de apoio, mas as necessidades são tão grandes que, quaisquer tipos de contribuições são bem-vindas.
A Aliança Empreendedora busca transpor as principais barreiras do setor. Eles atuam no acesso a comercialização, acesso a crédito (difícil para as comunidades pobres para avaliar como eles não têm garantia de oferta), e na qualificação para melhorar a gestão do negócio. "Nós também estamos aprendendo com os produtores, sobre como determinar os preços de nossos produtos, e como negociar", continua Tiago Dalvi. "O objetivo final é permitir que eles vendam seus produtos diretamente, sem necessariamente passar pela Solidarium."
De acordo com Dalvi, a renda média grupos de produtores que trabalham com a Solidarium e a Aliança Empreendedora triplicou. No caso da AEZP, a renda aumentou em até dez vezes, passando para cerca de R$500,00. Maria ganhou quase R$3.000,00 em 2009. O montante é menor do que em 2008, pois a crise reduziu a procura (os artesãos são pagos conforme a quantidade de produção).
Maria, que vive em uma pequena pensão do marido falecido. "Minha situação está melhorando pouco a pouco", afirma Maria. "Desde então, eu posso comprar alimentos de maior qualidade. Eu mesma consegui pagar a festa de aniversário do meu neto. "
INDEPENDÊNCIA. AEZP impulsionou sua produção graças ao empréstimo de microcrédito da Impulso (organização que também faz parte da Aliança Empreendedora), que permitiu a aquisição de novos equipamentos. Cada costureira já tem sua própria máquina de costura. "Como resultado, eu posso trabalhar em casa, sem deixar meus filhos", conta Simone, 24 anos. Como muitos adolescentes em situação de pobreza, Simone teve que abandonar a escola cedo, devido a uma gravidez prematura logo aos 13 anos de idade. Ela decidiu trabalhar há dois anos atrás e a jovem adora: "Eu me sinto útil". Ela ganha o equivalente a R$600,00 em um bom mês. É certamente uma maneira de fortalecer o Comércio Justo como um meio de ampliar a luta contra a pobreza.
SOLIDARIUM ONLINE
A Solidarium pretende lançar um site de e-commerce para abrir suas portas para novas oportunidades. A empresa prevê exportar no futuro, mas afirma que o mercado brasileiro ainda é prioridade devido ao seu tamanho o potencial de crescimento.
O governo estima que cerca de 50.000 associações, cooperativas e outros grupos se declarem parte do Comércio Justo. Os 22.000 identificados até o momento, têm um volume total de mais de 2,35 bilhões de euros e todo o setor envolve cerca de dois milhões de pessoas.
Esta matéria foi escrita por Chantal Rayes, enviado especial a Curitiba pelo jornal francês Libération.
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